24/04/2026

Treinamento em içamento offshore: por que é preciso aumentar a segurança

Por Fernando Fuertes, Eng.º e Desenvolvedor de Novos Negócios da Acro Cabos 

 

Em operações offshore, a movimentação de cargas está entre as atividades com maior potencial de risco. Dados da International Association of Oil & Gas Producers apontam que incidentes relacionados a operações de içamento permanecem entre as principais causas de acidentes graves na indústria de óleo e gás, frequentemente associados a falhas humanas, comunicação inadequada e leitura incorreta das condições operacionais.  

Análises de organismos internacionais indicam que uma parcela relevante desses eventos ocorre mesmo em ambientes tecnicamente estruturados, o que desloca o foco da discussão para a qualidade da preparação das equipes. 

No Brasil, embora não exista uma estatística consolidada específica para acidentes com cargas em ambientes portuários, os diferentes recortes disponíveis apontam para o mesmo vetor de risco. Dados do Ministério Público do Trabalho, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, indicam que o setor de transporte, armazenagem e correio registrou mais de 40 mil acidentes de trabalho em 2023, com forte incidência em atividades ligadas à movimentação de cargas.  

Relatórios recentes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, publicados entre 2022 e 2023, também apontam falhas em operações de içamento, amarração e movimentação como ocorrências recorrentes em auditorias de segurança nos portos organizados. Estudos da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, como o levantamento técnico de 2021 sobre acidentes em operações logísticas, reforçam que eventos envolvendo queda de carga, esmagamento e falhas em equipamentos de içamento estão entre os mecanismos mais frequentes de acidentes graves.  

Por conta disso, operadores e prestadores de serviço têm feito uma revisão mais profunda dos seus modelos de capacitação. O treinamento deixou de ser um evento pontual, voltado a certificação ou cumprimento de norma, e passou a ser tratado como um processo contínuo, diretamente conectado à realidade da operação.  

Em ambientes offshore, onde variáveis como vento, movimento da unidade, visibilidade e interação entre equipes mudam rapidamente, a capacidade de interpretar contexto e tomar decisão sob pressão tornou-se tão relevante quanto o domínio técnico do equipamento. 

 

Impacto do comportamento e da comunicação 

Erros cognitivos, como excesso de confiança, viés de confirmação e falhas de comunicação situacional estão presentes em uma parcela relevante dos acidentes com içamento. Por conta disso, os treinamentos passaram a incorporar elementos de comportamento e percepção, além de trazer diferentes funções da organização para o contexto.  

Um comando mal interpretado, um atraso na resposta ou uma leitura equivocada de sinalização podem desencadear uma cadeia de eventos com impacto relevante. Por isso, empresas especialistas têm incorporado a simulação de interações que ocorrem no dia a dia das operações, refletindo a complexidade do ambiente offshore.  

Outro eixo importante é o uso de dados operacionais para retroalimentar a capacitação. Empresas mais estruturadas têm integrado registros de quase acidentes, desvios operacionais e eventos críticos aos programas de treinamento. Em vez de trabalhar com exemplos genéricos, os exercícios passam a refletir situações reais vividas pela própria operação. Essa abordagem aproxima o treinamento da prática e reduz a distância entre o que é ensinado e o que efetivamente acontece no campo. 

Além disso, a análise sistemática desses dados permite identificar padrões que dificilmente seriam percebidos de forma isolada. Frequência de falhas em determinados tipos de operação, recorrência de erros em interfaces específicas entre equipes ou inconsistências em procedimentos tornam-se insumos para revisão contínua do conteúdo de treinamento. O aprendizado deixa de ser reativo e passa a ser estruturado. 

Esse movimento tem um impacto direto na cadeia de comando dentro da operação. Quando a equipe é treinada com base em eventos reais, a percepção de risco se calibra de forma mais precisa. Operadores que já simularam as consequências de uma falha de comunicação durante um içamento em mar agitado reagem de maneira diferente diante da mesma situação no ambiente real. A memória construída no treinamento passa a funcionar como referência de decisão, reduzindo o tempo de resposta nos momentos em que parar a operação é a escolha mais segura. 

 

Simulação e formação prática: onde o método encontra o ambiente real 

A capacitação em içamento offshore não se esgota na dimensão comportamental. Ela precisa incluir, com igual profundidade, o conhecimento técnico sobre os equipamentos que compõem o sistema de elevação, as normas que regem sua especificação e os critérios que determinam quando um componente deve ser retirado de operação. 

Cabos de aço, lingas, manilhas, cintas e acessórios de içamento funcionam dentro de parâmetros técnicos precisos. A carga de trabalho segura de cada componente é definida a partir da aplicação específica, e ignorar esse dimensionamento, seja por desconhecimento ou por pressão operacional, é um caminho direto para falhas que a inspeção visual não consegue prever. Normas como a ABNT NBR ISO 4309, que estabelece critérios para descarte de cabos de aço em equipamentos de içamento, e as famílias NBR 13541 e NBR 15637 e suas referências, aplicáveis a lingas e cintas de elevação, fornecem o referencial técnico que precisa estar no repertório de qualquer profissional que atua nessa atividade. 

A inspeção periódica dos elementos de içamento é, nesse contexto, uma extensão do treinamento. Profissionais capacitados para identificar sinais de desgaste abrasivo, fadiga por flexão, corrosão localizada e deformações estruturais são capazes de agir antes que o problema se torne um evento. Incidentes com cargas em plataformas offshore geram paralisações, danos a equipamentos, custos de manutenção e, em casos graves, afastamentos e consequências irreversíveis para as equipes. 

Por fim, o caminho que as organizações mais maduras do setor vêm percorrendo é o de integrar comportamento, dados operacionais, simulação prática e conhecimento técnico dos equipamentos em um programa coeso e contínuo. Quando esse conjunto funciona de forma articulada, o treinamento deixa de ser um requisito a ser cumprido e passa a ser a base sobre a qual a operação se sustenta, mesmo quando o mar não colabora. 

 

Sobre a Acro Cabos    

Especialista em soluções para elevação, amarração e movimentação de cargas, a Acro Cabos de Aço atua no mercado há mais de 25 anos. A empresa é reconhecida pela excelência de seus produtos e serviços, que atendem às mais rígidas exigências do mercado com certificações que atestam seu compromisso com a segurança e a qualidade, incluindo o Type Approval conforme a norma DNV 2.7-1, emitida pela DNV, aplicável a lifting sets destinados à movimentação de containers offshore. Essa certificação valida que o projeto, os processos produtivos e o controle de qualidade atendem aos requisitos técnicos exigidos para operações em ambiente marítimo. 

Saiba mais: https://www.acrocabo.com.br/ 


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