25/05/2026

Qual é o risco do desenvolvimento de software com IA?

Por Ramon Ribeiro, Diretor Comercial da Solo Network e CTO da Solo Iron

Quase metade do código produzido por assistentes de inteligência artificial contém vulnerabilidades de segurança, mesmo quando parece funcional e pronto para produção. Não se trata de especulação: o relatório GenAI Code Security 2025 da Veracode, que testou mais de cem modelos de linguagem em 80 tarefas de codificação, encontrou que 45% das amostras falharam em testes de segurança, com falhas em categorias clássicas do OWASP Top 10.

Em Java, a linguagem mais utilizada em ambientes corporativos, a taxa de falha chegou a 72%. Em paralelo, pesquisa da Stanford University publicada nos anais da ACM CCS demonstrou que desenvolvedores que usam assistentes de IA não apenas produzem código menos seguro, mas também declararam acreditar na segurança do que geraram.

O Gartner projeta que 75% dos engenheiros de software em grandes empresas utilizarão assistentes de IA para codificação até 2028. No Brasil, pesquisa da GitHub com 500 respondentes em empresas de grande porte publicada em 2024 indicou que mais de 97% dos desenvolvedores já utilizam essas ferramentas no trabalho, percentual equivalente ao de economias como Estados Unidos, Alemanha e Índia.

Limitações dos modelos de linguagem

A raiz do problema está na natureza desses sistemas. Modelos de linguagem não “entendem” segurança no sentido técnico. Eles operam por probabilidade, reproduzindo padrões presentes nos dados de treinamento. Como esses dados incluem tanto boas práticas quanto implementações vulneráveis, o resultado tende a refletir essa ambiguidade.

Esse tipo de falha é particularmente perigoso porque não se apresenta como erro evidente. Uma vulnerabilidade de segurança pode permanecer invisível por meses. O sistema continua operando normalmente, enquanto expõe dados, permite acessos indevidos ou cria caminhos para exploração futura.

Na prática, o que se observa é a ampliação de falhas já conhecidas, mas agora em escala maior. Entre as mais recorrentes estão problemas de injeção, uso inadequado de queries, validação insuficiente de entrada e construção insegura de chamadas a APIs. Em muitos casos, o modelo sugere soluções que parecem padrão, mas ignoram nuances de contexto, como origem dos dados, limites de confiança ou regras específicas de negócio.

Falhas de autenticação e autorização também aparecem com frequência. Fluxos gerados por IA tendem a simplificar processos, omitindo validações intermediárias ou adotando permissões mais amplas do que o necessário. Em um ambiente corporativo, esse tipo de simplificação pode abrir acesso indevido a dados sensíveis ou funções administrativas.

Outro vetor relevante é o uso de dependências. Modelos frequentemente sugerem bibliotecas externas para resolver problemas específicos, mas nem sempre consideram a segurança ou a maturidade desses componentes. Em alguns casos, indicam pacotes desatualizados ou até inexistentes, o que cria espaço para ataques de cadeia de suprimentos, como o registro malicioso de bibliotecas com nomes sugeridos pelo próprio modelo.

Como incorporar a IA com segurança

A questão central não é mais decidir se a organização vai usar IA no desenvolvimento. A questão é construir controles proporcionais à velocidade com que esse código entra em produção. Tratar todo output de modelos de linguagem como código de terceiro não confiável, integrando análise estática e dinâmica calibrada para os padrões de vulnerabilidade específicos da IA diretamente no pipeline de CI/CD, é o ponto de partida.

Mapear e controlar o shadow AI antes que ele exponha os ativos da organização é o segundo passo, e nenhum inventário de ferramentas aprovadas substitui controles técnicos efetivos de prevenção de vazamento de dados para provedores externos.

O que se consolida, portanto, é uma mudança no próprio conceito de desenvolvimento. A IA não substitui o engenheiro de software, mas altera o papel desse profissional. O foco deixa de ser apenas escrever código e passa a ser validar, interpretar e garantir que aquilo que foi gerado atende aos requisitos de segurança, qualidade e conformidade.

O Gartner estimou em seu relatório Predicts 2026 que abordagens baseadas em geração de código por IA aumentarão os defeitos de software em 2.500% até 2028 se os processos de revisão não forem redesenhados. Não é uma previsão catastrófica, é uma projeção de escala com base nas taxas atuais de adoção e nas taxas documentadas de vulnerabilidade.

No fim, o risco não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é incorporada ao processo. Organizações que tratam a IA como um acelerador sem ajustar seus controles tendem a acumular vulnerabilidades em ritmo superior à sua capacidade de resposta. Já aquelas que estruturam governança, observabilidade e disciplina de engenharia conseguem capturar ganhos de produtividade sem abrir mão da segurança.

Sobre a Solo Iron

Solo Iron é a vertical de cibersegurança da Solo Network especializada em oferecer proteção cibernética corporativa de ponta a ponta, por meio da uma equipe altamente especializada e soluções dos maiores fabricantes de tecnologias de cibersegurança do mundo. Reunindo a expertise e a bagagem de mais de 20 anos de experiência da Solo Network, o portfólio Solo Iron oferece soluções que vão desde a proteção de endpoints até o SOC totalmente gerenciado. Saiba mais em www.soloiron.com.br

 


Legenda:
Créditos: Arquivo/Reprodução