Pós-venda de veículos elétricos: é preciso desenvolver mão de obra especializada, padronizar reparações e medição da saúde da bateria
Por Guilherme Porazza Dias, Gerente de Mobilidade na TÜV Rheinland
O Brasil emplacou mais de 181.542 veículos elétricos plug-in em 2025, que representa crescimento de 44% em comparação com o ano anterior, quando foram vendidos 125.624 e a frota de veículos plug-in em circulação já é superior à 410 mil, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Ainda de acordo com a associação, no ano passado os eletrificados representaram 9% nas vendas dos veículos leves novos, chegando a 13% em dezembro. Um dos fatores que impulsiona o crescimento é a expansão dos pontos públicos e semipúblicos de recarga, que segundo a ABVE cresceu 167% de fevereiro de 2025 até o mesmo período deste ano. O Brasil já tem mais de 21 mil eletropostos e uma proporção de cerca de 20 veículos para 1 eletroposto.
Há uma evolução no número de eletropostos em todas as regiões do país. No Norte o número passou de 47 para 82 eletropostos, um crescimento de 74,5%. Nas demais regiões, onde já existiam um maior número de eletropostos, o crescimento foi de 26,4% no Nordeste, 25,6% no Centro-Oeste, 16,5% no Sul e 14,6% no Sudeste.
Segundo o Índice de Mobilidade do Consumidor (MCI) da consultoria EY, lançado neste ano, o consumidor brasileiro escolhe um eletrificado devido a evolução da tecnologia das baterias, que geram maior autonomia e melhor desempenho em comparação aos carros a combustão, a ampliação da oferta de modelos, o aumento no custo dos combustíveis tradicionais, preocupações ambientais, incentivos financeiros, o custo total de propriedade e a facilidade de manutenção.
Experiências de mercados mais maduros
Mas mercados mais avançados como Estados Unidos, Europa e China mostram que o desenvolvimento da eletromobilidade pode ser afetado por reduções de incentivos e dificuldades na revenda, pois a desvalorização dos veículos eletrificados ainda tende a ser maior do que os dos veículos a combustão.
A maior desvalorização é causada por fatores como a rápida evolução tecnológica, que possibilita o lançamento de veículos com mais autonomia e promoções com redução nos preços dos veículos novos, que afeta o mercado de usados.
No caso brasileiro, devido à baixa oferta de veículos eletrificados, a desvalorização dos eletrificados usados é menor se comparado a outros mercados. Mas o crescimento a longo prazo pode ser impactado pela falta de padronização no treinamento de mecânicos, na reparação de células da bateria e metodologias padronizadas para medir a Saúde da Bateria (SoH). Toda essa cadeia é importante para a manutenção de crescimento das vendas a longo prazo e segurança durante todo o ciclo de vida desses veículos.
Formação profissional
Apesar de alguns componentes serem similares aos veículos à combustão, como o sistema de suspensão, a formação de profissionais qualificados para a manutenção preventiva e corretiva de veículos eletrificados é importante pois os eletrificados exigem domínio sobre sistemas de alta tensão, eletrônica e diagnósticos digitais mais complexos.
A ABNT PR (prática recomendada) 1025, lançada no fim do ano passado, orienta o mercado no que diz respeito à manutenção de veículos eletrificados. Mas, até por ser uma prática recomendada e não obrigatória ainda é necessário um consenso para uma norma técnica consolidada.
Há ainda a necessidade de desenvolver mais centros de treinamento, capazes de preparar profissionais que precisam conhecer o Sistema de Gerenciamento da Bateria (BMS), inversores, sistemas de gestão térmica e os protocolos de segurança para manutenção, incluindo os riscos que envolvem o sistema elétrico de alta tensão.
Os centros de formação precisam ensinar como realizar a descarga elétrica do carro e fazer o desligamento da parte elétrica para que seja possível trabalhar com segurança nos outros sistemas do veículo e no reparo das baterias de alta tensão.
Enquanto o setor busca esse equilíbrio, a manutenção especializada permanece concentrada nas concessionárias, o que pode limitar o acesso e encarecer a porte dos veículos eletrificados, principalmente, no mercado de usados. Os centros de formação também são importantes na preparação dos órgãos de segurança pública para atender possíveis acidentes, por meio de treinamentos focados nos riscos específicos dos eletrificados e habilitando profissionais para oferecer uma resposta segura e eficaz em emergências.
Padronização de reparos e avaliações
Já existem iniciativas de reparo de módulos individuais defeituoso para garantir a sobrevida e o reuso dos componentes das baterias dos veículos eletrificados. Nestes reparos o pack principal é aberto para que sejam feitos testes nos módulos individuais e a substituição de células danificadas. Mas ainda não há uma regulamentação obrigatório específica para o recondicionamento das baterias no Brasil.
Como não há uma normativa nacional são usadas diretrizes internacionais incluindo a IEC 62660, que regula os testes de segurança e confiabilidade das células de íon de lítio; a IEC 62133, que estabelece os requisitos de segurança para baterias portáteis e seladas; e a ISO 26262, que define as a segurança dos sistemas eletrônicos do veículo para garantir que o sistema de gerenciamento da bateria opere sem risco após o reparo.
Outra área que também está em evolução é a padronização de métodos para medir a saúde da bateria (SoH), ponto mais importante a ser observado em um veículo usado. A saúde da bateria indica quanto da capacidade original permanece disponível. Essa avaliação é importante, pois dois veículos iguais e com a mesma quilometragem podem apresentar diferentes percentuais de capacidade, o que reflete no valor de revenda.
O estado de saúde da bateria é influenciado por fatores como uso excessivo de carregadores ultrarrápidos, que geram calor excessivo o que acelera a degradação química das células; exposição a climas quentes, que exigem mais do sistema de arrefecimento das baterias; padrão de carga, pois deixar o veículo descarregado por longos períodos ou fazer o carregamento frequentemente até 100% também afeta a vida útil da bateria.
Na prática um veículo que foi submetido diariamente a calor intenso, estacionamento constante sob o sol e carregamentos rápidos tende a ter uma bateria mais degradada. Como a bateria representa entre 30% a 50% do valor total de um veículo elétrico, o estado de saúde do componente é um fator financeiro crítico.
Há pouco tempo, a avaliação do SoH dependia exclusivamente do diagnóstico fornecido pela própria montadora por meio do BMS (Battery Management System), informado pelas montadoras. Mas, essas informações podem não refletir o estado real de saúde das baterias, que podem variar conforme as condições que esse componente foi submetido.
Portanto, é necessária a evolução no mercado de certificações independentes, com emissões de certificados que possam ser rastreados, que analisem a capacidade residual da bateria, o balanceamento das células e seu grau de envelhecimento, por meio de testes realizados durante um processo controlado de carregamento.
Dessa forma, as concessionárias podem emitir laudos padronizados e o consumidor de veículos usados pode ter mais uma ferramenta para comparar veículos eletrificados usados, similar ao laudo cautelar já usado e que avalia a estrutura, a originalidade e o histórico de um veículo usado.
A eletromobilidade está em expansão, mas para garantir seu crescimento e a segurança durante todo o ciclo de vida dos veículos eletrificados é necessário que toda a cadeia de reparação e avaliação acompanhe o crescimento da frota desse tipo de veículo no mercado brasileiro.
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