Operar a infraestrurura híbrida pode se tornar o novo gargalo da TI
Por Alexandre Theodoro, diretor de Negócios e Soluções da Faiston
Em muitas empresas, o problema já não está mais na falta de tecnologia, mas na dificuldade de operar o que foi construído. Ambientes que unem cloud, SaaS, sistemas legados e integrações externas ampliaram a capacidade digital das organizações, mas também criaram uma camada de complexidade que começa a aparecer no dia a dia: lentidão sem causa aparente, falhas intermitentes e incidentes que atravessam múltiplos sistemas sem um ponto claro de origem.
O que antes era um ambiente relativamente centralizado, com sistemas internos e controle direto sobre infraestrutura, deu lugar a um modelo distribuído. Aplicações dependem de múltiplas nuvens, serviços externos, integrações contínuas e redes que variam em qualidade e comportamento ao longo do tempo. Nesse cenário, a execução de uma única transação pode atravessar diversos ambientes antes de ser concluída.
O Flexera State of the Cloud 2026, com 753 respondentes globais, mostra que 73% das organizações já operam infraestruturas híbridas e utilizam, em média, 2,4 provedores de nuvem pública, número que chega a cinco em empresas de maior porte. Ao mesmo tempo, levantamento da HashiCorp em parceria com a Forrester indica que apenas 8% das organizações atingiram maturidade operacional elevada em seus ambientes de cloud.
Quando a complexidade passa a ser operacional
A operação de ambientes híbridos cria um tipo de dificuldade que não aparece de forma imediata. Os problemas tendem a surgir como degradação: aumento de latência, falhas intermitentes, instabilidade em integrações ou perda parcial de funcionalidade. Esse comportamento torna o diagnóstico mais lento e aumenta o tempo de resposta, porque a origem do problema nem sempre está no mesmo lugar em que ele se manifesta.
Em um ambiente distribuído, uma única transação pode depender de múltiplas camadas. A requisição sai de uma filial, passa por um provedor de conectividade, autentica em um serviço de identidade, consulta um sistema em nuvem, integra com um SaaS externo e retorna ao usuário. Qualquer variação em uma dessas etapas pode comprometer a experiência, mesmo que todos os componentes estejam, isoladamente, operacionais.
Esse encadeamento de dependências cria um efeito conhecido nas áreas de operação: a fragmentação da responsabilidade. O time de rede enxerga um cenário, o time de aplicações enxerga outro, o provedor aponta normalidade em sua camada, e o impacto permanece no negócio. Sem visibilidade integrada, a resolução se torna mais demorada e baseada em tentativa e erro.
Além disso, o crescimento do uso de múltiplas nuvens e serviços externos amplia o número de pontos de falha possíveis. Cada nova integração adiciona uma variável que precisa ser monitorada, governada e considerada em cenários de contingência. A infraestrutura deixa de ser apenas um conjunto de ativos e passa a ser um conjunto de relações.
Outro ponto, ainda mais delicado, é a perda de controle sobre o que acontece dentro próprio ambiente de TI. O Observability Forecast 2025 da New Relic, conduzido com 1.700 líderes de TI em 23 países, aponta que 73% das organizações não possuem observabilidade abrangente de sua infraestrutura, e que 41% dos gestores só tomam conhecimento de interrupções por meio de reclamações de clientes ou verificações manuais. Quando a visibilidade é parcial, a resposta a incidentes é reativa, e o tempo entre a falha e a correção se amplia de forma significativa.
Governar o híbrido exige outro modelo de operação
Diante desse cenário, a gestão da infraestrutura passa a exigir um nível de maturidade que vai além da administração tradicional de TI. O primeiro ponto é a visibilidade. Monitorar apenas disponibilidade de servidores ou links não é suficiente em ambientes híbridos. A operação precisa acompanhar o comportamento das aplicações ao longo de toda a cadeia, incluindo dependências externas, identidade, rede e experiência do usuário.
Isso implica adotar observabilidade como prática contínua, correlacionando métricas, eventos e transações. Sem esse nível de leitura, a empresa continua operando com uma percepção fragmentada da própria infraestrutura, o que dificulta tanto a prevenção quanto a resposta a incidentes.
O segundo ponto é a governança. Ambientes híbridos tendem a crescer de forma incremental, com novas soluções sendo incorporadas conforme a necessidade do negócio. Sem padronização, isso resulta em múltiplos padrões de configuração, políticas inconsistentes e aumento do risco operacional. A governança passa a ter um papel central para garantir que diferentes ambientes sigam critérios comuns de segurança, acesso, performance e gestão.
O terceiro ponto é a continuidade operacional. Em um cenário distribuído, a indisponibilidade de um componente pode não ser evitável, mas o impacto pode ser controlado. Isso exige planejamento de contingência que considere dependências externas, definição de modos de operação degradada e testes frequentes para validar se a arquitetura responde como esperado em situações de falha.
Por fim, a automação deixa de ser uma opção e passa a ser um requisito para escala. Na medida em que o ambiente cresce, tarefas manuais aumentam na mesma proporção, criando um volume de atividades repetitivas que consome tempo e aumenta a probabilidade de erro. Automatizar provisionamento, ajustes e respostas a incidentes reduz esse efeito e melhora a previsibilidade da operação.
A tecnologia para viabilizar esse modelo já está disponível. Plataformas de observabilidade, arquiteturas distribuídas, automação baseada em infraestrutura como código e redes definidas por software permitem maior controle sobre ambientes complexos. O desafio não está na ausência de ferramentas, mas na capacidade de integrar essas práticas ao dia a dia da operação.
No fim, a transformação digital não se sustenta apenas na adoção de novas aplicações ou na migração para a nuvem. O ponto de tensão passa a ser a operação. À medida que a infraestrutura se torna mais distribuída, a capacidade de manter visibilidade, governança e continuidade define o limite entre ganho de eficiência e aumento de risco.
O debate, portanto, não é sobre migrar mais ou menos para a nuvem. É sobre operar um ecossistema distribuído com disciplina técnica e governança. Em um ambiente híbrido, cada nova aplicação adiciona dependências invisíveis. Ignorar essa camada operacional não interrompe a inovação de imediato, mas amplia o risco de que a própria infraestrutura se torne o ponto de fricção da estratégia digital.
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