18/02/2026

OpenClaw e a nova geração de agentes de IA: autonomia operacional, risco expandido

por Heber Lopes, Head de Produtos e Marketing na Faiston

Lançado há poucos meses, o OpenClaw está longe de ser “mais um chatbot” – trata-se de um agente autônomo capaz de executar ações diretas nos sistemas corporativos, um salto que já redefine protocolos de cibersegurança. Se por um lado a tecnologia promete ganhos de produtividade ininterrupta, por outro força os líderes de TI a revisarem suas defesas digitais agora que a inteligência artificial atua por conta própria. A adoção estratégica desses agentes – em curso no mundo todo – abre oportunidades competitivas, mas exige vigilância constante para que a segurança caminhe no mesmo passo da inovação.

Um diferencial importante é que esses agentes aprendem e se adaptam conforme operam. Ao contrário das automações tradicionais (RPA) que seguem regras rígidas, os agentes de IA combinam aprendizado de máquina e modelo de linguagem para ajustar suas ações de acordo com o contexto. Eles mantêm memória das interações e resultados anteriores (persistência), refinando estratégias com o tempo.

Na prática, isso significa que uma tarefa bem-sucedida hoje informará a abordagem do agente amanhã. Grandes fornecedoras de tecnologia já oferecem ferramentas para criação de agentes corporativos: a IBM, por exemplo, lançou o WatsonX Orchestrate, propondo um “colaborador digital” capaz de integrar aplicativos empresariais e automatizar tarefas de RH ou vendas.

Startups também correm nesse espaço com soluções de assistentes autônomos especializados, enquanto comunidades open-source criam agentes customizáveis para qualquer um testar. O sucesso meteórico do OpenClaw – que em poucos meses atraiu dezenas de milhares de usuários e desenvolvedores buscando seu “Jarvis” pessoal – reforça que há apetite tanto de mercado quanto de mão de obra qualificada para tornar agentes uma realidade cotidiana.

Persistência, autonomia e integração tecnológica

Por trás do entusiasmo, é importante compreender como esses agentes de IA operam na prática. Em geral, são sistemas construídos sobre modelos avançados de IA (como os modelos de linguagem GPT-4, Claude, etc.) combinados com frameworks de software capazes de conectar a IA a ferramentas e APIs diversas. Um agente autônomo possui componentes adicionais: memória de longo prazo, módulos de tomada de decisão e conectores para executar ações.

A persistência é um fator-chave – o agente mantém estado e contexto entre interações. Isso quer dizer que ele lembra objetivos definidos, informações fornecidas anteriormente e resultados já alcançados, evitando ter que “reaprender” a cada nova tarefa. Essa memória persistente pode ser armazenada em bancos de dados ou mesmo em arquivos estruturados (no caso do OpenClaw, por exemplo, utiliza-se um repositório local em Markdown para guardar histórico e contexto). Graças a isso, o agente pode trabalhar de forma contínua: monitora eventos, aguarda condições e retoma fluxos conforme necessário, sem perder o fio condutor.

A autonomia na tomada de decisão é o que distingue esses agentes de softwares tradicionais. Eles são programados para perseguir um objetivo ou resolver um problema e, para isso, geram dinamicamente planos de ação, dividindo objetivos em subtarefas quando necessário. Utilizando o poder de raciocínio fornecido pelos modelos de IA, um agente consegue avaliar diferentes estratégias e escolher a mais adequada com base nos dados disponíveis e nas orientações de alto nível dadas pelos desenvolvedores.

Enquanto um script comum seguiria sempre o mesmo caminho pré-definido, o agente autônomo pode mudar de rota se detectar um obstáculo ou uma oportunidade melhor, replanejando suas ações “em tempo real”. Esse comportamento orientado a objetivos e adaptável é o que permite, por exemplo, que um agente ajustado para suporte ao cliente identifique a emoção em uma mensagem e altere o tom ou escale o caso, em vez de dar uma resposta padrão.

Finalmente, a interação com sistemas internos e ferramentas externas via APIs completa o ciclo que torna esses agentes tão poderosos. Em essência, eles atuam como uma cola inteligente entre diferentes plataformas: conseguem chamar APIs de sistemas corporativos, ler e escrever em arquivos, acionar serviços na nuvem ou aplicativos locais. O OpenClaw exemplifica essa capacidade ao executar comandos de sistema, controlar navegadores web, enviar mensagens em múltiplos canais de chat e até acessar sensores como câmeras e GPS quando autorizado.

Se algo pode ser automatizado via software, um agente de IA bem projetado pode orquestrar – seja reservar uma sala de reunião no Outlook, atualizar um registro no Salesforce ou despachar um alerta no Slack. Essa integração multi-ferramentas é essencial para que agentes atuem em fluxos operacionais completos, servindo de ponte entre departamentos e quebrando silos de informação. Em vez de cada equipe configurar suas próprias macros ou bots isolados, o agente autônomo centraliza a inteligência e circula pelas interfaces de cada sistema, aplicando políticas e lógica de negócio de forma consistente.

Desenvolvedores podem definir limites de atuação, e implementar mecanismos de aprovação para certas ações de alto impacto. Em muitos casos, os agentes operam em ambientes isolados dentro da infraestrutura da empresa, garantindo que mesmo um comportamento imprevisto não causará danos irreversíveis. Ainda assim, como veremos adiante, essa nova autonomia traz desafios de governança e monitoramento bem diferentes do que conhecíamos na TI tradicional.

Riscos de segurança

Como toda tecnologia disruptiva, os agentes de IA autônomos carregam não apenas oportunidades, mas também novos riscos de segurança e questões de governança. Se mal geridos, esses “colaboradores digitais” podem ganhar acessos excessivos, tomar decisões inadequadas ou mesmo ser alvo de ataques sofisticados – criando vulnerabilidades difíceis de rastrear. Executivos e líderes de TI começam a se perguntar: até onde podemos confiar numa inteligência artificial que age sozinha, e como supervisioná-la sem sufocar seu potencial?

Um dos riscos mais imediatos é a possibilidade de ações indevidas ou maliciosas passarem despercebidas. Como o agente opera em alta velocidade e sem intervenção humana direta, erros do modelo de IA ou instruções manipuladas por terceiros podem levar a consequências graves.

Imagine um agente designado para priorizar e responder e-mails recebidos pela empresa. Se um criminoso cibernético insere um comando escondido em meio a um texto aparentemente inofensivo, esse agente pode ser enganado a executar uma tarefa perigosa – por exemplo, reenviar informações confidenciais ao invasor, acreditando estar apenas obedecendo a uma solicitação legítima. Nesse cenário, o agente não é intrinsecamente maligno, mas foi manipulado sem perceber. E o pior: como não há um humano tomando a ação diretamente, esse tipo de incidente não deixa rastros claros, dificultando a detecção do vazamento.

Casos assim revelam uma nova classe de ameaça, em que as tradicionais assinaturas de ataque podem falhar – afinal, o “ataque” foi transformado em uma ação interna legítima aos olhos dos sistemas.

Além disso, há o fato de que modelos de IA às vezes alucinam ou cometem erros. Em um chatbot, uma resposta errada pode ser apenas um inconveniente, mas em um agente autônomo, uma conclusão equivocada pode acionar uma cadeia de eventos indesejados.

Por exemplo, um agente encarregado da gestão de estoque poderia interpretar erroneamente uma tendência de vendas e fazer um pedido grande demais de matéria-prima, gerando custo desnecessário. Sem um olhar humano crítico revisando cada decisão, aumenta-se o potencial de danos a partir de erros sutis.

Outro problema é o do acesso privilegiado desgovernado. Para serem úteis, agentes frequentemente precisam de credenciais para acessar contas, bancos de dados e sistemas internos. Se essas credenciais não forem gerenciadas com rigor, o agente pode acabar tendo muito mais permissão do que o necessário – e qualquer brecha na sua segurança significa que um invasor poderia explorar essas credenciais. Um agente comprometido poderia, em tese, executar milhares de ações maliciosas por minuto, algo inviável para um invasor humano comum.

A adoção segura dessa tecnologia exige três pilares fundamentais: arquitetura segura, governança robusta e observabilidade contínua. A simples implementação dos agentes não basta – é essencial construir uma base técnica e organizacional que assegure operações confiáveis e alinhadas às metas estratégicas do negócio.

A arquitetura precisa ser pensada desde o início para conter comportamentos imprevistos: isso inclui ambientes isolados, permissões granulares e limites bem definidos de atuação. Já a governança envolve criar diretrizes claras, integrar os agentes às estruturas de risco e compliance e gerenciar suas identidades com o mesmo rigor aplicado a usuários humanos. É nesse eixo que entram a definição de escopos, a supervisão ativa das decisões automatizadas e a adequação às normas regulatórias emergentes.

Por fim, a observabilidade garante visibilidade contínua sobre o que os agentes estão fazendo, com que frequência e com base em quais critérios. Monitoramento em tempo real, trilhas de auditoria completas e métricas de confiança dos modelos são elementos centrais para prevenir abusos, diagnosticar falhas e permitir aprendizado constante.

Estamos na aurora da era da IA agêntica, e empresas ágeis em adotar esses agentes podem ganhar vantagem em produtividade e qualidade de serviço. Os riscos são reais, mas, como frequentemente ocorre em tecnologia, o maior risco pode ser ficar para trás. Com arquitetura segura, governança sólida e observabilidade constante – os agentes de IA autônomos podem se tornar aliados confiáveis na estratégia corporativa, liberando o talento humano para focar no que realmente importa: criatividade, inovação e decisões estratégicas.

Sobre a Faiston

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