26/06/2026

NR-1 e riscos psicossociais: a auditoria do "bem-estar" entra no centro da gestão corporativa

Por Plínio Pereira, Gerente de Certificação de Sistemas de Gestão na TÜV Rheinland 

 

As empresas brasileiras tiveram um ano para se adaptar a inclusão dos fatores de riscos psicossociais no ambiente de trabalho que foram incluídos na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e precisam fazer parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do Programada de Gerenciamento de Riscos (PGR). Os riscos psicossociais são somados aos conhecidos riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos, e foram incluídos na norma por meio da Portaria do Ministério do Trabalho (MTE) nº 1.419/2024.  

Desde 26 maio de 2026, após um período de um ano para adaptação e implantação de ações para mitigar os riscos de os trabalhadores desenvolverem doenças psicossociais no ambiente profissional, a Inspeção do Trabalho passa a autuar as empresas, que não se adaptaram à nova NR-1. A expectativa é que nas primeiras fiscalizações os Auditores-Fiscais do Trabalho tenham uma atuação mais orientativa, apontem as falhas e exijam planos de ação, que incluam medidas de prevenção, avaliação de severidade/probabilidade do colaborador desenvolver uma doença psicossocial. Mas em casos de reincidência, as empresas precisarão pagar multas, a frequência de fiscalizações pode aumentar e em casos mais extremos há o risco de setores da empresa serem fechados.   

Essa é a principal mudança na NR-1 desde sua criação em 1978 e isso acontece devido ao crescimento das doenças psicossociais no ambiente profissional. Em 2024, ano em que foi feita a atualização da norma, o número de afastamentos do trabalho decorrentes de problemas na saúde mental no Brasil foi de 472.328 casos, um crescimento de 66% em comparação ao ano anterior e maior número da série histórica, segundo dados Ministério da Previdência Social. No ano seguinte, 2025, o número voltou a subir e chegou a 546.254, crescimento de mais de 15% e novo recorde da série histórica. Além disso, segundo a pesquisa Ipsos Health Service Report 2025, a saúde mental se tornou o principal problema de saúde para os brasileiros, sendo que 52% dos entrevistados apontam a saúde mental como sua maior preocupação a frente de doenças como o câncer (37%). 

 

Problema global 

O bem-estar e a preocupação com a saúde mental do trabalhador é uma pauta mundial. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos como ansiedade e depressão custam globalmente cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade.  

A crescente preocupação com a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores tem impulsionado mudanças regulatórias e reforçado a importância de práticas de gestão mais estruturadas nas organizações. Nesse contexto, a ISO 45001, norma internacional para Sistemas de Gestão de Saúde e Segurança Ocupacional, oferece uma abordagem reconhecida para identificar perigos, avaliar riscos, implementar medidas de controle e promover a melhoria contínua das condições de trabalho. 

Embora a revisão da ISO 9001 esteja em andamento, não há confirmação pública de que a futura versão da norma incluirá requisitos específicos relacionados à gestão da saúde mental ou dos riscos psicossociais. Ainda assim, temas como liderança, cultura organizacional, gestão de riscos e ambiente de trabalho continuam sendo elementos importantes para o desempenho das organizações e podem contribuir indiretamente para a criação de ambientes mais saudáveis e produtivos. 

A relevância da ISO 9001 nesse debate também se deve à sua ampla adoção global. Segundo a ISO Survey 2024, existem mais de 1,4 milhão de certificados ISO 9001 válidos em todo o mundo. Já a ISO 45001, embora menos difundida, vem registrando crescimento contínuo e se consolidando como uma importante ferramenta para organizações que buscam fortalecer a gestão da saúde e segurança ocupacional, incluindo a prevenção e o controle de fatores de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. 

 

PDCA como ferramenta das empresas  

A ISO 45001 pode ajudar as empresas a atenderem às novas determinações da NR-1. A abordagem PDCA (Plan- Planejar, Do - Fazer, Check - Checar e Act - agir) da ISO pode ser usada para melhorar as condições de trabalho incluindo ações para mitigar os fatores de riscos de gerar doenças psicossociais. Este modelo de abordagem é citado no Guia de informações sobre os Fatores Psicossociais Relacionados ao Trabalho, elaborado pela Coordenação-Geral de Normatização e Registros, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.  

Para quem não está familiarizado, no PDCA as empresas precisam planejar as ações, fazer a implementação, fazer a verificação dessas ações e depois corrigir o que for necessário, num processo contínuo para melhorar as condições dos colaboradores, visando mitigar os fatores de risco físicos e psicossociais relacionados ao trabalho. Esse processo que visa a melhoria contínua pode ser seguido na elaboração do Programada de Gerenciamento de Riscos (PGR).  

No caso das doenças psicossociais a Coordenação-Geral de Normatização e Registros dá como exemplos de fatores de riscos: assédio de qualquer natureza, má gestão das mudanças organizacionais, baixa clareza de função, baixas recompensas e reconhecimento, falta de suporte, baixo controle, baixa justiça organizacional, eventos violentos ou traumáticos, excesso e baixa demanda, maus relacionamentos, condições difíceis de comunicação e trabalho remoto e isolado. Os riscos podem ser diferentes em cada empresa e mesmo entre os setores de uma mesma companhia.  

 

Transparência e participação dos colaboradores  

Outra sinergia da ISO 45001 com a nova versão da NR-1 é a importância de engajar e envolver os trabalhadores na identificação dos riscos e na elaboração de soluções. Um caminho é promover a escuta ativa da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (CIPA), caso exista, dos trabalhadores e seus representantes, para que haja a descrição de como a atividade é executada.  

Mas também é necessária a participação da alta liderança, líderes gerenciais e supervisores. O objetivo comum é identificar os perigos e avaliar os riscos de todas as atividades da empresa, que precisam ser detalhados em documentos disponíveis para os gestores, profissionais e trabalhadores quanto para a Inspeção do Trabalho.  

 

Após identificar os perigos é necessário verificar o nível de risco resultante da avaliação de probabilidade e severidade. Em seguida é necessário classificar prioridade e adotar e aprimorar de forma constante medidas de prevenção para diminuir ou controlar o nível de risco que foi apurado. O processo deve ser feito por meio de um plano de ação e o documento também deve conter evidências da implementação, acompanhamento e eficácia das medidas de prevenção adotadas para controlar os riscos identificados, por meio de indicadores de como a implementação das medidas de prevenção ajudaram a melhorar a saúde psicossocial dos colaboradores.  

As empresas que possuem um Sistema de Gestão de Saúde e Segurança Ocupacional baseado na ISO 45001 tendem a contar com processos mais estruturados para identificação de perigos, avaliação e controle de riscos, participação dos trabalhadores e promoção da melhoria contínua. Dessa forma, a adequação aos requisitos da NR-1 torna-se mais eficiente e consistente. 

Essa integração contribui para o fortalecimento da conformidade legal, aumentando a segurança jurídica da organização, reduzindo custos e perdas relacionados a afastamentos, absenteísmo e acidentes de trabalho, além de fortalecer sua reputação e atratividade como marca empregadora. 

Tanto para o atendimento aos requisitos da NR-1 quanto para a efetividade de um Sistema de Gestão baseado na ISO 45001, é fundamental garantir a participação ativa dos trabalhadores em todas as etapas do processo. O envolvimento das equipes promove maior transparência nas ações implementadas, fortalece a cultura de prevenção e contribui para a redução de riscos operacionais e jurídicos. 

 

TÜV Rheinland: há 150 anos tornando o mundo mais seguro 

A TÜV Rheinland é uma das principais fornecedoras de serviços de testes e inspeções do mundo, com receita anual superior a 2,9 bilhões de euros e cerca de 28.500 colaboradores em mais de 50 países. Seus especialistas altamente qualificados testam sistemas e produtos técnicos, viabilizam a inovação e apoiam empresas na transição para uma atuação mais sustentável. A empresa capacita profissionais em diversas áreas e certifica sistemas de gestão conforme padrões internacionais. Com expertise reconhecida em áreas como mobilidade, fornecimento de energia e infraestrutura, a TÜV Rheinland assegura qualidade independente em todas as etapas, inclusive em tecnologias emergentes, como hidrogênio verde, inteligência artificial e condução autônoma. Dessa forma, contribui para um futuro mais seguro e melhor para todos. Desde 2006, a TÜV Rheinland é signatária do Pacto Global da ONU, que promove a sustentabilidade e o combate à corrupção. Para saber mais, acesse: https://tuv.com  


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