Içamento sob instabilidade: lições do offshore para a construção civil
Por Fernando Fuertes, Engenheiro e Desenvolvedor de Novos Negócios da Acro Cabos de Aço
Na construção civil, a instabilidade em operações de içamento é um fator que precisa ser gerenciado com atenção no dia a dia. Algumas vezes, esse risco vem do clima, como na ventania que atingiu a cidade de São Paulo no final do ano passado, com rajadas de ventos acima de 90 km/h. Em outros momentos, a instabilidade vem do próprio canteiro, com interferências, atividades simultâneas, circulação intensa de pessoas e equipamentos, mudanças rápidas de frente de trabalho e a pressão permanente por produtividade.
Em situações assim, a segurança do içamento deixa de depender apenas da capacidade do equipamento e passa a depender da maturidade do processo, o que inclui a disciplina de execução e a qualidade das decisões operacionais. É nesse ponto que o offshore oferece um aprendizado valioso para a construção civil, já que este é um setor que sempre precisou tratar içamento como um sistema crítico, que precisa funcionar em condições variadas.
Nas operações de movimentação de carga, o offshore consolidou rotinas de planejamento, governança, comunicação e controle de risco que reduzem a variabilidade do resultado mesmo quando o ambiente é imprevisível. O ganho que a construção civil pode obter não é copiar procedimentos ao pé da letra, mas absorver o que existe de mais útil por trás deles. Trata-se de aprender a operar com instabilidade sem normalizar o risco.
Normas de segurança para operações sob ventos fortes
No aspecto climático, a construção civil tem uma base normativa sólida, que é a Norma Regulamentadora 18 (NR-18). Ao tratar de gruas, esta NR define parâmetros objetivos para a tomada de decisão, inclusive em função do vento, prevendo alarme automático quando rajadas ultrapassam 42 km/h. Nestes casos, a operação só deve ocorrer mediante análise de risco específica. Já quando a velocidade do vento supera 72 km/h, a operação deve ser paralisada imediatamente.
Esses critérios são relevantes porque permitem transformar uma percepção subjetiva em critério operacional, especialmente em dias de temporais ou mudanças rápidas de tempo. O que o episódio de São Paulo deixa claro é que eventos de vento forte podem atingir patamares capazes de encostar ou ultrapassar limites que a própria norma já considera incompatíveis com a operação segura, o que exige prontidão para parar, manter a área controlada e retomar apenas com condições verificadas.
Mesmo quando o vento não é o fator dominante, a lógica permanece. A chuva, por exemplo, reduz visibilidade e aumenta a chance de falhas de comunicação. Piso molhado altera atrito e estabilidade, principalmente no posicionamento de equipamentos e no tráfego de apoio. Raios e descargas atmosféricas elevam o risco em estruturas metálicas, sobretudo em áreas expostas. Em ambiente urbano, prédios e vãos podem ainda canalizar o vento e criar turbulência localizada que não aparece com a mesma intensidade em medições mais distantes.
As lições do offshore para cenários adversos
A contribuição do offshore começa pela forma como o planejamento é estruturado. A International Marine Contractors Association, referência global em práticas de operações marítimas, trata o planejamento e os procedimentos de içamento como elementos centrais de segurança e afirma que, embora suas diretrizes tenham origem em operações offshore, os princípios são aplicáveis de forma genérica a operações de içamento em qualquer lugar. Nesse modelo, o içamento não é um evento isolado, é uma operação que precisa de definição de papéis, sequência clara de ações, critérios de decisão e verificação de integridade dos recursos antes de qualquer movimento.
A diferença mais visível é a categorização do içamento. Em operações marítimas é comum separar içamentos rotineiros de içamentos críticos e aplicar níveis crescentes de controle à medida que o risco aumenta. Na construção civil, o mesmo içamento pode ser tratado como rotina em um dia de céu aberto e baixa interferência, e virar crítico em um dia de chuva, vento, mudança de acesso ou presença de frentes simultâneas em área próxima. A prática que vale adotar é reconhecer formalmente quando o cenário mudou e elevar o nível de controle antes de levantar, com revisão de plano, checagens adicionais e autorização explícita. A disciplina aqui é simples e eficiente. Se o contexto muda, a classificação muda e, se a classificação muda, o rigor também muda.
Outro ponto em que o offshore é especialmente forte é a gestão de interfaces. Plataformas e embarcações operam com atividades simultâneas o tempo todo, e a coordenação dessas atividades é tratada como barreira de segurança. Na construção civil, essa realidade é igualmente presente. Içamentos ocorrem enquanto há montagem, concretagem, circulação de caminhões, trabalho em altura, instalação elétrica e movimentação de materiais em áreas próximas. O risco não está apenas na carga, está na interação da carga com o ambiente. A lição prática é que a zona de exclusão precisa ser viva, com controle de acesso, sinalização eficaz e supervisão constante durante toda a manobra. A área isolada não pode existir só no papel. Ela precisa funcionar como barreira real.
Competência e cadeia de comando fecham o núcleo das práticas mais transferíveis. Em ambientes offshore, é incomum iniciar um içamento sem briefing, sem papéis claros e sem um comando único reconhecido por todos. Isso reduz ruído, evita decisões concorrentes e melhora a capacidade de parar com rapidez quando algo sai do esperado.
Além da norma: construção civil deve amadurecer processos
A construção civil já tem espaço normativo para elevar a disciplina de comunicação, inclusive com diretrizes sobre planejamento e comunicação em operações com gruas. O que falta em muitos casos é consistência operacional. Assim, a operação deve parar sempre que ocorrerem situações de falha de comunicação, falta de visibilidade do sinalizador ou quando a área não estiver controlada. A maturidade do processo aparece justamente quando parar não é visto como fracasso, e sim como parte do método.
Quando se olha para a instabilidade de forma mais ampla, fica claro que o vento é apenas uma das faces do problema. O essencial é definir gatilhos e critérios de decisão que sejam verificáveis e aplicáveis no canteiro. Os parâmetros da NR-18 devem funcionar como ponto de partida para um sistema de decisão mais completo que também considere chuva intensa, visibilidade, condições do solo, proximidade de redes elétricas, densidade de pessoas e interferências operacionais.
No fim, o que o offshore ensina para a construção civil é sobre maturidade operacional, uma vez que instabilidade não se elimina, se gerencia. E a principal lição é que o método não é inimigo do cronograma. Na verdade, é o que mantém o cronograma de pé quando o ambiente deixa de colaborar.
Sobre a Acro Cabos
Especialista em soluções para elevação, amarração e movimentação de cargas, a Acro Cabos de Aço atua no mercado há mais de 25 anos. A empresa é reconhecida pela excelência de seus produtos e serviços, que atendem às mais rígidas exigências do mercado com certificações que atestam seu compromisso com a segurança e a qualidade. Saiba mais: https://www.acrocabo.com.br/