19/02/2026

Curtailment, leilões e data centers: o novo cenário do setor elétrico brasileiro

Por Maria Guilhermina, Head de Energia da Tractebel Brasil, Chile e Canadá

 

O setor elétrico brasileiro passar por um momento paradoxal, ao mesmo tempo em que a geração de energia renovável cresce, existe o risco cada vez maior de ser necessário acionar as usinas termelétricas – mais caras e mais poluentes – para suprir a demanda energética. Esse cenário já ocorreu em outubro de 2025, e no ano passado 20,6% da energia solar e eólica gerada no país não pode ser utilizada, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).  

A perda da energia ocorre devido ao curtailment (restrição de geração), termo que ficou conhecido em 2025, devido aos cortes que o ONS precisou fazer para preservar a segurança e a confiabilidade do SIN (Sistema Interligado Nacional).  

Apesar de sempre ter feito parte da operação do sistema, os cortes em anos anteriores foram bem inferiores – 9,3% em 2024, 3,6% em 2023, 0,5% em 2022 e 0,1% em 2021 – o que não gerou atenção ao tema. O debate fez com que o ONS apresentasse, em outubro de 2025, uma área especial em seu site para dar mais transparência sobre a necessidade do processo de curtailment.  

Crescimento acelerado

A restrição de geração acontece com mais frequência pois a geração da energia solar e eólica cresceu no Brasil devido a fatores como a evolução tecnológica, a queda no custo dos equipamentos e o fortalecimento das políticas de incentivo. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (BEN 2025), da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), as fontes solar e eólica já representam juntas 23,7% da geração de eletricidade no país. Em 2024, a energia solar cresceu 39,6% em comparação com o ano anterior, enquanto a eólica avançou 12,4%, no mesmo período, e a tendência é o crescimento dessas fontes na matriz energética nacional.

Além das grandes usinas eólicas e fotovoltaicas, a tecnologia e as políticas de incentivo contribuíram para o desenvolvimento do mercado de geração distribuída, onde o consumidor também é gerador. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil já tem mais de 59 gigawatts (GW) de potência instalada de geração de energia solar. Sendo que a maior parte da geração, 37,6 GW é originária de sistemas de geração distribuída, instalados em telhados ou quintais de mais de cinco milhões de imóveis residenciais, comerciais ou propriedades rurais.  

O crescimento da geração distribuída trouxe benefícios aos consumidores e até para o meio ambiente. Segundo a Absolar, a energia fotovoltaica já evitou a emissão de cerca de 66,6 milhões de toneladas de CO2 na geração de eletricidade no Brasil e desde 2012 o país recebeu mais de R$ 251,1 bilhões em novos investimentos e criou mais de 1,6 milhão de empregos.  

A evolução da geração de energia renovável é positiva para que o Brasil possa ter uma matriz cada vez mais sustentável e segundo o Caderno de Demanda e Eficiência Energética do Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, da EPE, a demanda energética continuará crescendo, com projeção de um aumento médio anual de 2,1% no consumo de energia até 2034.  

A grande oferta de energia sustentável é um diferencial competitivo e é um dos fatores que colocam o Brasil no mapa global para receber data centers de inteligência artificial. O uso integral da energia renovável na operação dos data centers é uma das condições previstas no Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (REDATA), que prevê a suspensão de tributos como PIS/Pasep, Cofins, IPI e Imposto de Importação para a instalação de data centers no país, o que aumentaria a soberania digital, além de promover a geração de empregos diretos e indiretos.  

Infraestrutura precisa acompanhar a geração

O crescimento da oferta de energia limpa, por meio de plantas eólicas e solares, é importante para atender as demandas atuais e futuras. Mas esse crescimento precisa ser acompanhado por investimentos em infraestrutura e ampliação do SIN para que a energia seja distribuída dos locais de produção aos locais de consumo. Outra forma de mitigar a necessidade do curtailment é armazenar a energia gerada quando há maior incidência do sol e de ventos, além da energia não usada nos fins de semana quando há menor demanda do setor produtivo.  

Para que isso ocorra a pauta regulatória precisa caminhar em sintonia e os poderes executivo, legislativo e os órgãos reguladores precisam ter uma visão sobre todo o setor energético, da geração passando pela distribuição até chegar ao consumo. A perspectiva é que a pauta regulatória será movimentada nos próximos meses.  

O primeiro grande tema é a aprovação em definitivo do REDATA, primeiramente viabilizado por meio da Medida Provisória (MP) nº 1.318, de 2025, e neste início de ano apresentado como o Projeto de Lei 278/2026 e aprovado, no início de fevereiro, em regime de urgência pelo poder legislativo.

O Ministério de Minas e Energia (MME) também confirmou que diferente do que ocorreu no ano passado, em 2026 devem ser realizados dois leilões de transmissão. O primeiro previsto para 27 de março poderá ter até 10 Lotes e é destinado a construção e manutenção de 888 km em linhas de transmissão, distribuídos em 11 estados: Bahia, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.  

O leilão previsto para o segundo semestre ainda não tem os Lotes definidos, mas a previsão é superar R$ 20 bilhões em aportes para mais de 4.000 km de novas linhas. A realização, novamente, de dois leilões por ano ajuda a diluir riscos, pode atrair mais investidores a cada rodada e dar mais fôlego para as empresas prepararem as propostas, planejarem o capital e a formação de consórcios.

Em abril, está previsto um leilão inédito, dedicado aos sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS). Este leilão vai permitir a instalação e operação de grandes sistemas de baterias capazes de armazenar a energia elétrica ampliando o aproveitamento das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, para posterior despacho nos momentos de maior demanda, aumentando a flexibilidade e a confiabilidade do SIN.  

A expansão do sistema de transmissão e o armazenamento da energia gerada são as principais formas de reduzir as perdas e assegurar que a energia gerada – cada vez mais limpa – esteja disponível em todo país com confiabilidade e custo acessível. O sucesso contínuo dessa empreitada pode consolidar a posição do Brasil como um dos destinos mais atrativos do mundo para investimentos em infraestrutura energética e atrair outros tipos de investimento que demandam energia limpa a preços competitivos.

Sobre a Tractebel

A Tractebel é uma multinacional de consultoria em engenharia que desenvolve soluções integradas para projetos sustentáveis de energia, infraestrutura, saneamento, hidrologia, geotecnia, nuclear e meio ambiente. Apoiada por 160 anos de experiência combinados com conhecimentos locais a Tractebel é capaz de solucionar projetos complexos orientados para neutralização de carbono. Ao conectar estratégia, engenharia e gestão de projetos, a comunidade de mais de 5.600 especialistas ajuda empresas e autoridades públicas a criar um impacto positivo em direção a um mundo sustentável, onde as pessoas, o planeta e os negócios prosperam coletivamente. Possui escritórios na Europa, Oriente Médio, América do Norte e do Sul, e faz parte do Grupo ENGIE, referência global em energia e serviços de baixo carbono.

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