30/03/2026

A nova dependência das empresas brasileiras à conectividade crítica

por Heber Lopes, Head de Produtos e Marketing na Faiston

A conectividade passou a ocupar um papel que, até pouco tempo, era reservado a sistemas internos. Hoje, em muitas empresas brasileiras, a disponibilidade de rede determina diretamente a capacidade de operar. Esse movimento se intensificou com a adoção de cloud, SaaS e aplicações em tempo real, que transferiram para fora do ambiente local processos que antes eram controlados internamente.

Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. A pesquisa TIC Empresas realizada pelo Cetic em 2024 indica que 92% das organizações no Brasil já utilizam fibra óptica e que cresce o uso de aplicações digitais em processos centrais. O avanço da infraestrutura foi acompanhado por uma transformação mais profunda: a dependência operacional da conectividade. Ainda assim, a forma como essa infraestrutura é contratada e gerida continua, em muitos casos, baseada em critérios de custo e capacidade nominal.

Essa diferença entre dependência e gestão fica mais evidente em cenários de indisponibilidade. Quando a conectividade falha, o impacto não se limita ao acesso à internet. Sistemas deixam de autenticar, integrações são interrompidas e fluxos operacionais passam a depender de processos manuais ou simplesmente param. Em operações distribuídas, esse efeito se propaga rapidamente, afetando atendimento, vendas e logística de forma simultânea.

O impacto financeiro acompanha essa dinâmica. Levantamentos internacionais mostram que o custo médio de downtime pode ultrapassar US$ 300 mil por hora em empresas de médio e grande porte, com valores significativamente maiores em ambientes industriais, onde processos são contínuos e altamente integrados. Mesmo considerando diferenças entre setores, a indisponibilidade deixou de ser um problema técnico isolado e passou a representar risco direto para o negócio.

O papel da infraestrutura e da regulação

No Brasil, esse cenário é influenciado também por fatores estruturais. A Agência Nacional de Telecomunicações estabelece critérios objetivos para caracterizar interrupções de serviço, considerando eventos superiores a 10 minutos com impacto sobre usuários. A existência desse tipo de parâmetro reforça que indisponibilidade não é exceção, mas uma condição prevista e mensurável.

Há ainda fatores externos que ampliam a exposição. Dados da Conexis Brasil Digital mostram que mais de 5,4 milhões de metros de cabos foram roubados ou furtados em 2023, afetando milhões de usuários. Esse tipo de ocorrência evidencia um ponto recorrente em ambientes corporativos: a ausência de diversidade real de rotas.

A contratação de múltiplos links não garante resiliência quando a infraestrutura compartilhada permanece a mesma em parte do trajeto. Em situações desse tipo, a interrupção de um trecho físico pode comprometer simultaneamente todas as conexões disponíveis.

Eventos de maior escala reforçam essa leitura. Durante as enchentes no Sul em 2024, municípios tiveram a conectividade severamente afetada, exigindo medidas emergenciais para restabelecimento do serviço. Esse tipo de cenário expõe a dependência de infraestrutura física e a necessidade de planejamento para contingências que vão além de falhas pontuais.

Outro vetor relevante está na dependência de plataformas digitais. A interrupção global dos serviços da Meta em 2021 mostrou como falhas em infraestrutura de backbone podem afetar simultaneamente comunicação, autenticação e operação em escala global. No contexto brasileiro, onde aplicações de mensageria são frequentemente utilizadas como canal de vendas e atendimento, esse tipo de indisponibilidade tem efeito imediato.

Esses diferentes cenários apontam para um mesmo desafio: a conectividade passou a ser um componente estrutural da operação, mas ainda não é tratada dessa forma em muitas organizações.

O desafio é crescer com resiliência

A resposta, no entanto, não está em simplesmente contratar mais banda. Está em construir arquitetura de conectividade. Isso significa links redundantes em caminhos físicos distintos, para que o rompimento de um cabo ou a falha de um provedor não paralise a operação. Significa adotar SD-WAN para orquestrar o tráfego entre múltiplos links e executar failover inteligente, uma tecnologia cujo mercado na América Latina, segundo a Meticulous Research, deve saltar de US$ 157 milhões em 2024 para US$ 2,77 bilhões até 2035.

Também significa implementar observabilidade de rede, que vai além do monitoramento reativo para identificar causas-raiz e antecipar falhas antes que afetem o negócio. E também demanda, em muitos casos, contar com gestão contínua por equipes especializadas, porque a complexidade de ambientes multicloud com múltiplos links e políticas de segurança convergentes ultrapassa a capacidade da maioria dos times internos.

Para operações distribuídas em áreas remotas, em segmentos tais como agronegócio, mineração, logística e energia, a conectividade satelital de baixa órbita adicionou uma camada de resiliência antes inexistente. O Brasil já soma mais de 1 milhão de clientes Starlink ativos, e operadoras como Algar Telecom e Arqia lançaram soluções corporativas voltadas a setores que operam fora dos grandes centros.

Um estudo realizado pela pela Oxford Economics em 2024 identificou que as empresas no topo em capacidade de recuperação – o que os pesquisadores chamaram de "líderes em resiliência", se recuperam 28% mais rápido de incidentes do que as demais. A diferença não é de orçamento; é de abordagem. Essas empresas entenderam que conectividade é um ativo estratégico que precisa ser gerenciado, monitorado e protegido com o mesmo rigor aplicado à segurança cibernética ou à continuidade financeira.

Toda empresa que migrou para a nuvem, digitalizou processos e conectou operações em tempo real fez, quer tenha percebido ou não, uma aposta na disponibilidade da sua rede. A pergunta que a liderança executiva precisa se fazer hoje não é quanto custa melhorar a arquitetura de conectividade. É quanto custa continuar sem fazê-lo.

Sobre a Faiston

Fundada em 2001, e com um novo posicionamento de mercado desde 2021, a Faiston é uma integradora de serviços e soluções 100% nacional. Com sede em São Paulo, a empresa conta com mais de 300 funcionários e 5.500 parceiros de tecnologia em todo o Brasil. Para saber mais, acesse: https://faiston.com


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